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7 de agosto de 2012

Viagem á Ituiutaba, terra de Jerônimo Mendonça



Esboço do desenho que fiz para o livro
   Estou organizando uma obra literária sobre Jerônimo Mendonça, cuja conclusão não sei quando se dará, pois é um trabalho minucioso e detalhado, pois pretendo não somente falar sobre sua vida, mas como também sobre seus livros, seus amigos, suas palestras, suas fundações, seus pensamentos, suas encarnações...Ainda este ano publicarei através da Solidum Editora um livro infantil sobre ele, na qual transferi todos os meus direitos autorais aos editores que acreditaram no meu trabalho e que também repassarão uma parte para o Lar Espírita Pouso do Amanhecer, a creche fundada pelo Jerônimo. Eu desejava que este livreto por tratar-se de um alguém que fora cego por 20 anos, fosse editado em Braille, para que as crianças deficientes visuais tivessem acesso á vida de Jerônimo, mas infelizmente não foi possível. E o título que eu dei de “Jerônimo para as Crianças” foi substituído para “Gigante Deitado”, fazendo uma referência ao apelido que ele ganhou ainda em vida e que o fez tornar-se mais conhecido ainda quando nossa amiga Jane Martins Vilela publicou um livro em sua homenagem com o título de “O Gigante Deitado”. Espero ansioso pelo lançamento desta obra infantil, em que na qual eu com minha incompetência, acabei por arriscar alguns traços nas ilustrações dos personagens e das situações nas poucas páginas existentes.

    Mas voltando á falar do outro livro que estou fazendo sobre a biografia de Jerônimo, após conversar com muitos amigos de Jerônimo e percorrer algumas cidades de São Paulo, Paraná e Minas Gerais em busca de informações sobre Jerônimo, agora chegou a vez de ir á sua terra natal: Ituiutaba, Minas Gerais.

   Aqui em São José dos Campos, São Paulo, o Jerônimo se hospedava na casa de minha vizinha Maria Luisa Freire, que com muito carinho cuidava dele e o acompanhava em suas palestras pela região do Vale do Paraíba, Paraná, no interior e capital paulista. E nessas ocasiões estavam também com eles meu amigo Hélder Fernandes Bastos, que aceitou o meu convite de acompanhar-me nesta viagem realizada á Ituiutaba, em 26 de julho de 2012, a fim de concluir as pesquisas para começar á escrever de vez o livro citado acima.

   Na quinta-feira acordei ás 5hs da manhã para trabalhar e assim que cheguei no horário do almoço - após uma manhã toda dirigindo - lá vou eu novamente ao volante, mas desta vez para ir rumo á Minas Gerais.
   Passei na casa de meu companheiro de viagem e “pé na estrada”.
Hotel Zote ao amanhecer
   Nossa primeira parada - depois de já ter escurecido - foi em Uberaba. Deixamos o carro e bagagens no Hotel Zote - famosa hospedagem onde as caravanas do seu Mendonça, que desde o final dos anos 70 saiam com o pessoal de São José dos Campos para ver o Chico em Uberaba, mais precisamente em 1978 – e seguimos á pé até a 'Casa da Prece', onde o Hélder relembrou com saudade de quando eles levavam o Jerônimo para ver o Chico ali. Mostrou-me onde paravam a sua Kombi e onde a cama do Jerônimo ficava próxima da porta, e que carinhosamente Chico saía até lá em direção á ele para saudá-lo.

   Na manhã seguinte, dia 27 de julho bem cedinho partimos para Ituiutaba, passamos por Uberlândia (outro local onde Jerônimo tem grandes amigos até hoje) e chegamos em Ituiutaba. Á primeira vista percebemos que as ruas continuam do mesmo jeito - todas com nomes de números - e foi assim que chegamos até á Chácara das Flores, onde está situada a Fundação Espírita Jerônimo Mendonça, criada por Maria Gertrudes Coelho Maluf, amiga e biógrafa de Jerônimo.
   Ao chegarmos na portaria, liguei pra ela e foi-nos autorizada a entrada no local, onde estava presente apenas o zelador seu José - que irmão carinhoso com a natureza – e ele pacientemente mostrou-nos cada mudinha, cada horta, cada cantinho do local, onde possui até uma mini-cachoeira no riacho que ladeia o extenso terreno. É lindo demais este lugar: muito verde, muitos pássaros, você sente a energia do local, sente a espiritualidade amiga ao seu lado, é um revitalizador de vibração andar por ali.
Foto aérea do terreno onde é a Fundação Jerônimo Mendonça
    Nesta fundação são atendidas diversas crianças e por lá eles tem oficinas de teatro, música, desenho, pintura, informática, esporte...até fraldas eles estão produzindo. Depois de ver quase tudo, ao voltarmos para a portaria da fundação, deparei-me com algo que emocionou-me muito e que não esperava ver ali: a cama ortopédica que Jerônimo usou por 30 anos. Ela está exposta em um recinto fechado que está sendo projetado para ser colocado junto á uma réplica de seu corpo. Ao lado da cama o telefone. Ali será um memorial do Jerônimo, muito lindo!
   Mas as surpresas não pararam por aí! Antes mesmo de sairmos, vi de longe um busto e corri para vê-lo mais de perto, era um de Jerônimo Mendonça e que ao entrar nós não haviamos visto.
Os 2 lados da rua pertencem á FEJM
   Achamos que havia terminado o nosso passeio, mas ao sair pela portaria, do outro lado da rua a fundação continua...Isso mesmo! Ela ocupa os dois lados da rua, você a atravessa e tem ainda uma livraria espírita, com diversas obras á venda e uma biblioteca com o nome de Chico Xavier onde se pode ler e alugar livros de todos os títulos, não somente espíritas. Ali mesmo há uma lanchonete e um teatro lindo ao ar livre que quando o avistei, fui transportado para outras épocas, é impressionante, suas colunas o faz viajar no tempo, é como se você estivesse em um teatro romano, grego...não sei explicar, é só vendo para crer. O médium Carlos Baccelli esteve em sua inauguração e ao chegar no local ele falou para o público presente: “Antes de vir aqui eu havia preparado uma palestra, mas ao ver tudo isso, mudei completamente o que eu iria explanar!”

   Na saída do teatro se vê a portaria do local que ganha o nome do mentor espiritual da médium fundadora Maria Gertrudes, o pintor inglês Joseph Turner.

Túmulo de Jerônimo Mendonça e sua mãe
   Ao sair dali anestesiados pela espiritualidade, seguimos rumo ao Cemitério São José onde foi enterrado o corpo de Jerônimo Mendonça Ribeiro. Passando pelas ruas próximas ficamos á imaginar como fora o enterro dele que acabou sendo chamado de “festa espiritual” de tão lindo que foi. Entramos no cemitério e por não haver ninguém no local para nos informar, começamos á procurar sozinhos, o Hélder e eu procurávamos por um túmulo enfeitado, em forma de pirâmide, já que nos fora informado ser assim e andamos pelo cemitério todo. No local eu encontrei muitos túmulos de amigos do Jerônimo, os reconhecia pelos nomes e fui fotografando para colher posteriormente as datas de seus nascimentos e desencarnes. Até que depois de andar pelo local inteiro, percebemos não encontrarmos o túmulo de nosso amigo. E assim que a secretaria foi aberta, nós perguntamos ao senhor que trabalhava ali e ele todos sorridente pela situação em que nos encontrávamos de estar ali há tempos sem achar o “sarcófago” do Jerônimo – assim brincava o Hélder naquele momento – debaixo de um sol forte e clima seco – há semanas não chovia – o homem deu dois passos e disse “é aqui oh!”. Começamos á rir de nós mesmos, pois ele era o primeiro túmulo, logo na entrada e o mais simples do cemitério, bem apertadinho, ladeado por outros túmulos em todos os cantos, quase que não se chega até ele devido ao aperto. Aquele foi um momento de reflexão para nós, alguém que desejava tumbas e pirâmides para si em outras encarnações, estava ali seu corpo despojado em um pequeno quadrado, com 4 vasos de flores e uma plaquinha envelhecida pelo tempo.

Hélder e Eurídice no portão, ao lado (azul) a gráfica.
   Saímos do cemitério pensativos e fomos procurar um hotel. Ficamos hospedados na rua 36, não tão perto da casa de Jerônimo, mas na mesma direção que ela, nosso quarto ficava na mesma coordenada e para ir até a rua 16, onde ele nasceu e viveu não foi difícil. Ao chegarmos lá, deparamos com o Centro Espírita Seareiros de Jesus aberto, casa esta que fundada por ele em 13 de setembro de 1970, localiza-se em frente sua moradia. Esta sua rua é “iluminada”, a gráfica Cairbar Schutel, também fundada por ele fica de muro com sua casa e o Sanatório Espírita José Dias Machado, que ele tanto colaborou juntamente de seu amigo Tibúrcio, fica na mesma calçada que sua casa, quase em frente á Casa dos Velhinhos, que pertence ao Centro Espírita Adolfo Bezerra de Menezes. Tudo em uma rua só!

   No Seareiros de Jesus estavam sendo doados pães e roupas ao necessitados, o Hélder e eu entramos no local para conhecer e por pouco não nos confundiram com as pessoas que iriam receber as doações, pois ali ninguém nos conhecia e não estávamos muito bem vestidos (risos), saímos do local e preferimos ficar do lado de fora. Assim que saímos vimos uma moça da Casa dos Velhinhos chamar na casa em que Jerônimo morava, Hélder e eu atravessamos a rua e ficamos á esperar quem saísse da casa. Eis que sai uma senhora e Hélder á reconhece: era Eurídice, a irmã de Jerônimo. Nos aproximamos dela e meu amigo pergunta de Josefa, a outra irmã de Jerônimo que conhecia muito bem o Hélder, ela nos conta que ela desencarnou há uns 8 anos e nos detalhou sobre seu desencarne. Assim fomos conversando e o tempo passando, tudo isso por cima do muro (até registrei nas fotos) e eis que do Seareiros saiu uma senhora que antes de entrar em seu carro nos avistou e disse: “Vocês são os amigos de São José dos Campos?”. E atravessando a rua ela nos abraçou. Era Márcia de França Franco, a "Flor morena do Nilo" que Jerônimo tinha tanto apreço, ela mantém a creche Lar Espírita Pouso do Amanhecer, fundado por Jerônimo, até os dias atuais. Foi ela quem convidou-me á visitar a cidade por telefone. Ela precisa ir embora e marcamos um reencontro á noite na Fraternidade Espírita Cristã, na Rua 6, esquina com a Avenida 39.

Eurídice e eu no quarto do Jerônimo (ao fundo os quadros)
   Assim que ela foi embora, Eurídice entrou dentro de sua casa e voltou com a chave do cadeado nos dizendo: “Vocês querem entrar para ver o quarto do Jerônimo?” Era tudo o que eu queria ouvir, em pensamento enquanto conversávamos no portão eu pedia isso á ela (risos). Ao colocar o pé no quintal, eu senti algo muito especial, uma paz diferenciada, era como se estivesse entrando em outra dimensão, um lugar sagrado...antes de chegar na sala, Hélder lembrou com Eurídice do quartinho que existia no fundo onde Jerônimo hospedava os amigos, que tinha pintado na porta uma inscrição com o nome de Ricardo Tadeu.

   E ela nos contou a história deste jovem que se suicidou em São Paulo e que seu irmão fez isso na porta de seu quarto para homenageá-lo, era de praxe ele fazer isso aos desencarnados amigos.
    Adentramos na sala e a primeira coisa que ela nos mostrou foi uma foto de sua mãezinha dona Antonia, parada em frente seu porta-retrato ela nos contou que sua mãe sentia muitas saudades e sofria muito quando ele partia para São José e ficava pro lado de cá uns 4 meses sem voltar para Ituiutaba. Com olhar distante ainda pensando em sua mãe ela se vira e nos mostra um quadro na parede de Jerônimo Mendonça (uma tradicional foto dele em que foi inclusive tirada na casa de Luísa). E eis que ao olharmos para a foto do Jerônimo, Eurídice nos fala para manter fixos a atenção na boca de Jerônimo na fotografia, e nos pergunta: “Ela não está se mexendo?” - E ela fez o gesto abrindo e fechando a boca, mostrando como ela estava enxergando a foto fazer – “Ele sempre fazia assim com a boca!” e devido á sua euforia em enxergar isso na foto, eu concordei, ela ficou muito feliz com aquilo e isso demonstrou para mim que ela sente muita saudade do irmão e que estava feliz com a nossa presença ali, nos mostrava tudo com alegria e ao mesmo tempo, uma saudade contida. Mostrou-nos também um quadro pintado por uma moça em homenagem ao Jerônimo e outras particularidades que não convém relatar aqui no blog. Á seguir nos mostrou a cozinha, conversamos um pouco e entramos em seu quarto. A primeira coisa que eu vi foi algo que por um impulso quase liguei para São José dos Campos e falei “Wanderléia! Você não acredita! Sua foto está aqui até hoje!” Fiquei muito feliz em ver que mesmo depois de quase 23 anos do desencarne de Jerônimo, a foto da Léia ainda está ali, intacta, conservada, juntamente com as de Eurípedes Barsanulfo, Antusa Martins, Jesus, Maria e do dia em que Jerônimo conheceu o Rei Roberto Carlos e sua mãe Lady Laura. Eurídice lembrou com nostalgia de Roberto, do carinho que Jerônimo tinha para com ele e vice-versa. Ela nos contou algumas histórias sobre Jerônimo, sobre o dia de seu desencarne e ainda nos mostrou o seu banheiro que está ali até hoje com a mesma cortininha que serve de porta. Hélder lembrou do banho dado por ele ao Jerônimo ali naquele local e ainda vimos sua estante com os livros, a vitrola que ele gostava de ouvir suas músicas e alguns certificados de cidadão honorário e benemérito.

   Eurídice nos convidou para um cafezinho, mas preferimos partir, pois ela estava com dores e já fazia tempo que estávamos por lá, confesso que fui embora sem querer ir, pois estava muito bom ficar ali, mas precisávamos pensar no bem estar da nossa grande contadora de histórias, que com sua simplicidade, se inibia na presença de câmeras.

Saímos da rua 16 e seguimos até a esquina com a avenida 7, rua esta onde Jerônimo trabalhou em um armazém quando adolescente e por incrível que pareça, vimos um comércio em estilo bem antigo ali aberto. Um pouco mais abaixo chegamos no Grupo Espírita Amor Fraterno, casa esta que foi o primeiro centro espírita em que Jerônimo colocou seus pés. Foi ali que aos 15 anos de idade, após o desencarne de sua avó materna, á convite de Gabriel da Rocha Galdino, morador da também avenida 7, ele começou na Doutrina Espírita. Fizemos uma gravação em frente á casa espírita e fomos pra casa tomar um banho, pois á noite iríamos na Fraternidade Espírita Cristã.

Alex na árvore entrelaçada
   Chegamos um pouco atrasado por nos perdermos pelo caminho, mas conseguimos ainda ouvir a palestra de Maria Gertrudes que falava sobre a aceitação das dores e sofrimentos. E como não podia deixar de ser, ela mencionou o Jerônimo ao final de sua explanação e eis que ao término da mesma, fomos muito bem recepcionados por ela e pelos confrades da região. Antes de terminar Márcia França Franco relembrou que Chico disse certa vez que ali naquele bairro, Natal, iriam decolar e repousar muitos seres de luz...realmente é verdade, por ali viveram os Tibúrcio e por ali está a creche Lar Espírita Pouso do Amanhecer, que ao sairmos dali, foi-nos apresentada pela Gertrudes e pela Márcia. Mesmo sendo de noite elas nos abriram as portas e pudemos ver desde a secretaria até a área externa onde duas árvores mangueiras se entrelaçaram com o tempo, e a creche foi construída em torno delas. Ali ganhamos livros do Jerônimo, da Gertrudes e pudemos colher muitas informações. No dia seguinte pela manhã iríamos retornar ali para tirar fotos e fazer filmagens, pois no escuro estava um pouco difícil.

   Márcia despediu-se de nós e fomos convidados á seguir á Gertrudes até sua casa. Como já se sabe, espírita quando se encontra e senta para conversar, vai longe. E conosco não foi diferente, ficamos em sua cozinha até uma e meia da madrugada (risos).
   Ela nos mostrou os projetos para o memorial de Jerônimo que fará na Fundação em torno de sua cama ortopédica, mostrou-nos centenas de fotos (mais de 200, uma mais rara que a outra), mostrou-nos suas pinturas, seus livros...foi bom demais!

Maria Gertrudes e Hélder Bastos na FEJM
   Pela manhã fomos até o Seareiros de Jesus, o Amor Fraterno e ao Pouso do Amanhecer. Na volta descemos do carro para conhecer á pé todo o centro da cidade, a parte mais moderna e mais movimentada. Depois almoçamos no restaurante que fica bem próximo ao hotel, onde até fizemos amizade com o pessoal. E em seguida ligamos para a Gertrudes, pois ela queria nos mostrar sua biblioteca e livraria. Quando descemos as escadas do hotel, já apressados, fomos surpreendidos pela filha da dona do hotel, que curiosa perguntou-nos o que fazíamos, pois entrávamos e saíamos á todo momento do hotel com laptop em mãos, câmeras, microfone...e falamos sobre a pesquisa que fazíamos em torno do Jerônimo. De imediato ela falou-nos emocionada: “Jerônimo?  Ele era bom demais, fiquei anos sem vê-lo, pois ele não parava em casa e nem aqui na cidade. Meu marido foi muito amigo dele na infância e ocorreu uma história muito linda entre nós, onde ele nos passou uma lição de vida grandiosa...” (mas essa vou contar no livro – risos).  Assim que ela terminou de contar sua história olhamos para o relógio e saímos apressados, pois a Gertrudes nos esperava em sua casa. Ao entrarmos no carro, Hélder disse algo que concordei “É uma maravilha colher depoimentos de pessoas assim, anônimas ao Espiritismo, que tem um sentimento diferente de carinho pelo Jerônimo e que falam de outra maneira.” Realmente isso é verdade e consegui bastante depoimentos assim!

As colunas greco-romanas do Teatro ao Ar Livre
   Fundação Jerônimo Mendonça: Lá estávamos nós novamente, mas desta vez acompanhados por sua fundadora. Notamos a alegria de Gertrudes ao mostrar cada detalhe de sua colônia espiritual na terra. Comentei com ela que sentia sobre nós um local semelhante, uma colônia espiritual cheia de espíritos laboriosos. E ela falou que era justamente isso que ocorria ali, um local igual ao outro. Pois é incrível ver as construções que ela projetou, nota-se ao chegar que foi tudo inspiração de benfeitores amigos, pois é tudo perfeito e cada coisa milimetricamente em seu lugar.

A Livraria com a Biblioteca
   Ela abriu-nos as portas de sua biblioteca e quando entrei lá dentro haviam mais acomodações do que eu imaginava ter, pois do lado de fora dava-se impressão que era grande, mas não tão daquele jeito. Ao fundo havia uma salinha onde ela fazia seus atendimentos espirituais, com uma janela direta para uma vegetação nativa, intacta pelo homem. Ali mesmo um quartinho com suas pinturas e um sofá para os amigos aguardarem. E anexo á biblioteca, está a livraria, onde foi-nos autografados alguns de seus famosos livros. Quando íamos saindo, olhei para as paredes e vi alguns quadros, um chamou-me a atenção: era uma bela donzela e pela sua roupa, a liguei muito pelo gosto de meu amigo Hélder. Ao seu lado outros quadros, mais simples, porém lindos da mesma forma. E eis que Gertrudes diz quando meu pé direito já estava do lado externo da porta “Eu quero dar uma pintura pra você Alex!”. Fiquei muito feliz naquele momento, pois apreciei muito os quadros e não imaginava que receberia tal presente, recusei á primeiro momento, mas ela insistiu que eu escolhesse algum. Olhei para todos e o mais belo que achei foi a da bela donzela, mas pensei “Aquele não, pois tem a ‘cara’ do Hélder” (risos) e então falei para Gertrudes “Você tem um pintor amigo que se chama Alex e que sempre se utiliza de sua mediunidade para realizar este trabalho de psicopictografia...” ela continuou “Sim, na verdade este é um diminutivo de seu nome que ele se utiliza...” e eu finalizei “Pois bem, há algum aqui de sua autoria, pois gostaria de levar um do meu ‘xará’”. E ela apontou-me o único dele que ali havia, estava ao lado do “Bela Donzela”, de Leonardo da Vinci. Subi na cadeira e o peguei, ao descer ela pediu que olhasse em seu verso para ver o nome do quadro e a data em que ele foi pintado. Ao conferirmos, estava escrito 28 de julho de 2010, exatamente dois anos antes, que interessante! E em seguida ela pediu ao Hélder que escolhesse um pra ele também, percebi que meu amigo ficou muito envergonhado, dizendo que não precisava doar o quadro e sem que ele houvesse dito algo pra mim, fui logo dizendo á Gertrudes “Posso escolher pra ele? Pois ele está com vergonha, mas sei qual ele escolheria!” Ela riu e olhou também diretamente ao que já imaginávamos, fui subindo para pegá-lo e ele confirmou que seria este! Foi muito legal este momento.

Porta da sala de reuniões Chico Xavier, no Templo da Prece 
   Depois ela nos mostrou toda a Fundação e algo que achei surreal, e que eu não havia percebido no dia anterior quando estivemos por lá, foi o templo da prece Alfredo Júlio Fernandes, onde todos se reúnem para fazer as reuniões mediúnicas e de vibrações. Ela fica na parte superior da construção, ou seja, no alto. E lá de cima é o ponto mais alto do local, onde se pode ver todos as outras construções, árvores, lago, plantações...é maravilhoso! Fiquei á imaginar quando houvesse uma reunião lá em cima como seria a sensação.

   Ali mesmo no meio da vegetação, em um dos diversos banquinhos espalhados pelo terreno, Gertrudes convidou-nos á uma prece, que foi lindamente realizada pelo Hélder, onde tivemos como fundo musical o canto dos pássaros, o barulho da água correndo ligeira pelo riacho e a própria espiritualidade da natureza á nos cantar aos ouvidos. Foi uma experiência única em minha vida, nunca esquecerei daquele momento, era como se fizéssemos parte de um todo, natureza, espírito, corpo...uma só prece, uma só vibração, um só ser...enquanto a prece era realizada, nossos espíritos se elevaram á tal modo que era como se flutuássemos sobre os bancos. Maravilhoso!

Reunião na Casa da Prece de Chico Xavier, Uberaba.
   Gertrudes se dirigiu á sua casa para ir ao casamento de uma jovem espírita que participava da fundação, muitos espíritas da cidade estariam presentes nesta festa, inclusive a Márcia, mas alguns ainda estariam na UMEI (União das Mocidades Espíritas de Ituiutaba) para a palestra do Simão Pedro, de Patrocínio, que ocorreria de noite. Pelo caminho o Hélder e eu demos ainda algumas voltas, mas ao olharmos para o relógio, eram quase 17hs e estava á escurecer. Sairíamos de Ituiutaba somente no domingo pela manhã, mas seria uma longa viagem no dia seguinte. Eis que então venho-me uma idéia á tona “Hélder, o que acha de irmos agora para Uberaba, ás 20hs começa os trabalhos na Casa da Prece de Chico Xavier, poderíamos ir lá e depois dormirmos no Zote de novo. Pela manhã partiremos para São José dos Campos e chegaríamos até mais cedo em nossa casa, quem sabe até antes de escurecer estejamos em nossa cidade!” Ele sorriu pra mim e disse “Vamos sim, mas até irmos pro hotel, arrumarmos nossas malas e chegar em Uberaba, serão mais e 3 horas!”. Fizemos tudo isso e pegamos a estrada ás 17hs. 19:20 estávamos em frente ao posto de gasolina Zote que faz parte do Hotel Zote, na beira da rodovia. O Hélder deu um largo sorriso quando desliguei o carro e falou “Puxa! Você ‘incorporou’ o Ayrton Senna” Rimos á bessa e entramos novamente no quarto 60. Deu tempo para descansar um pouco e depois subir até a Casa da Prece que estava bem vazia. Foi uma reunião bem familiar, poucas pessoas, lugares vagos e após o término fui conversar com o Eurípedes, filho do Chico, que lembrou da minha filhinha de 6 anos, que o havia conhecido há 8 meses quando estivemos ali em Uberaba. Ele autografou um livro pra ela e deixou um pequeno recado á ela, pois ela o adora! Combinamos de no dia seguinte passar em sua casa para pegarmos umas lembrancinhas da livraria, já que ela estaria fechada. Ao sairmos da Casa da Prece atravessamos a rua e fomos á padaria lanchar. Enquanto estávamos por lá várias pessoas entravam e saiam comprando seus pães para levar ás suas casas, e em suas mãos folhetos de Allan Kardec, Chico Xavier, Bezerra...comentei com o Hélder “Lá na padaria do meu bairro as pessoas entram com folhetos litúrgicos, pois ao acabar a missa da igreja que fica em frente, todos passam por lá...” e ali era diferente! E quando fomos no caixa pagar a conta, em nossa comanda havia cobrado um preço muito alto, á mais do que consumimos. Poderia até nos passar despercebido. Mas o caixa e dono do estabelecimento nos notificou e após notarmos sua honestidade, quando nos despedimos dele estava atrás de seu balcão um exemplar de “O Evangelho segundo o Espiritismo”. Fatos e fatos!
   No quarto não conseguíamos dormir, desligamos a televisão e ficamos á conversar até altas horas.
   Acordamos bem cedo e após o café decidimos dar uma passada no “Pedro e Paulo” para ver o Carlos Baccelli, mas ao chegarmos lá fomos avisados de que ele estava em palestra em São Paulo. Aproveitando que estava ali em Uberaba e assim como havia combinado com meu amigo Cézar Carneiro - na outra vez que estive ali na cidade - o procuraria para dar-lhe um abraço. E dei o meu “olá” ao Cézar antes de ir até a casa do Eurípedes, que já nos esperava por já ter chegado o horário combinado. Ele nos abriu a porta de sua casa e por ali mesmo entramos por de trás da livraria, escolhemos nossas camisas e após rápidas palavras com eles, partimos. Ainda passamos no Mercado Muncipal e na igreja que acho tão linda: São Domingos. E eis que chega ao final nossa viagem, fizemos algumas paradas pelo caminho, almoçamos e relembramos cada momento deste nosso passeio que foi um verdadeiro retiro espiritual, um encontro com a fé, com Jerônimo Mendonça, com o verdadeiro Espiritismo...São locais que não somente os espíritas, mas os cristãos de todas as religiões deveriam ir para sentirem o que Deus realmente quer de nós, que é o nosso respeito pelas pessoas, pela natureza, por nós mesmos, para a nossa evolução. Foi algo maravilhoso que vivenciamos e que expressar aqui por palavras e fotos fica muito difícil, muito pequeno, muito supérfluo...é como dizia Jerônimo Mendonça “QUE BELEZA!” 

Lago existente dentro da Fundação Esp. Jerônimo Mendonça
Pátio interno da creche fundada por Jerônimo, o Lar Esp. Pouso do Amanhecer


O próprio Chico Xavier pediu para fazerem na creche estas 2 piscinas para as crianças devido ao clima quente da região
As salinhas da creche são lindas, bem organizadas, com nomes das crianças em suas carteiras
Outra parte do Lar Esp. Pouso do Amanhecer: o Berçário



Belíssima pintura de Gertrudes na parede do berçário
Hélder Bastos ao lado do busto de Jerônimo na Fundação Esp. Jerônimo Mendonça

Cama ortopédica que o "Gigante Deitado" usou por 30 anos e que está exposta na Fundação Esp. Jerônimo Mendonça





Quer saber mais um pouco sobre Jerônimo Mendonça?

Assista o video abaixo






    Quer saber um pouco sobre a Fundação Esp. Jerônimo Mendonça?

Acesse www.fejm.com.br















14 de janeiro de 2012

85 - ALEX entrevista GERALDO LEMOS NETO

Ele é escritor, articulista, orador e médium psicógrafo.
Por 12 anos ele foi diretor da UEM (União Espírita Mineira)
Fundou a Vinha de Luz Editora em Belo Horizonte, onde reside.
Ele é historiador e biógrafo de Chico Xavier, com quem conviveu desde 1981.
Ele é quem conserva e mantém a Casa de Chico Xavier em Pedro Leopoldo para visitações.
Ele é também um dos organizadores do anual Encontro Nacional de Amigos de Chico Xavier.
Ele é conhecido por nós simplesmente como "Geraldinho", mas seu nome é Geraldo Lemos Neto.

* Entrevista realizada em set/2011, alguns dias depois de ocorrer o Encontro Amigos de Chico Xavier"

ALEX - Que honra Geraldinho poder entrevistá-lo, a primeira pergunta é sobre o seu início no Espiritismo, conte-nos como foi, por favor.

Geraldo Lemos Neto
GERALDINHO - A honra é nossa caro Alex Sandro. Pelo lado materno, sou integrante de uma família espírita natural da cidade de Pedro Leopoldo, Minas Gerais, a mesma cidade natal de Chico Xavier. Alguns integrantes da família Machado já eram espíritas antes mesmo de Chico Xavier, no início do século XX, como meus tios avós José Flaviano Machado, ou simplesmente “Zeca”, e Adélia Machado de Figueiredo.

   Minha avó Carmen Machado dos Santos foi colega de grupo escolar de Chico Xavier em sua meninice. Outros tios avós muito queridos conviveram de perto com o desabrochar da mediunidade de Chico Xavier nos primeiros tempos como João Machado Sobrinho, Nair Machado Paschoal e Walter Machado. Temos cartas de Chico Xavier em que ele afirma que minha bisavó Georgina Cândida Machado era a melhor amiga de sua mãe, Maria de São João de Deus. Quando publicamos a biografia CHICO XAVIER – MANDATO DE AMOR pela União Espírita Mineira, em 1992, Chico nos revelou que a casa onde ele nasceu era uma casa geminada, onde metade pertencia ao seus pais e a outra aos meus tios bisavôs Eliseu e Cilia Correa.

ALEX - Que legal! Vizinhos! E como você o conheceu pessoalmente?

Geraldinho e Chico
GERALDINHO - Como já foi dito anteriormente sou de uma família muito próxima a Chico Xavier desde muito tempo e os seus casos, contados em reuniões familiares, sempre me comoveram muito. Então comecei a escrever-lhe cartas de agradecimento nas quais apenas assinava “um amigo” sem me preocupar em registrar o remetente, por imaginá-lo uma pessoa muito ocupada. Em Outubro de 1981, chamado por minha tia avó Nair Machado Paschoal, fui a São Paulo colaborar como voluntário num evento no Centro Espírita União onde Chico lançaria 2 novos livros de sua psicografia. Participei ao lado dela daquela noite inesquecível, trabalhando na arrumação dos livros que Chico autografaria, das 8 horas da noite até as 7:30 horas do dia seguinte, portanto quase 12 horas de serviços ininterruptos. Me impressionou assistir a figura de Chico Xavier com carinho extremo recebendo milhares de visitantes, conversando com eles, estimulando-os em nome de Jesus e ofertando-lhes rosas e livros. Quando já não mais havia ninguém na fila, às 7:30 horas chegou a nossa vez de abraçá-lo. Fiquei estupefato quando Chico chamou-me de Geraldinho (conforme todos em família me chamam) e revelar que gostava muito de receber as minhas cartinhas, que muito lhe alegravam, mas que não entendia o por quê de duas coisas, do fato de eu não as assinar e da razão de não colocar o endereço do remetente para que ele pudesse me responder. Não pude dizer coisa alguma já que as lágrimas me rolavam pelas faces. Em seguida Chico ofertou-me um buquê de rosas e me convidou a visitá-lo em Uberaba. Não preciso dizer que 15 dias depois lá estava eu em Uberaba para conhecer o seu trabalho extraordinário de assistência e consolação em nome da Doutrina Espírita.

   A partir daí desenvolvemos uma amizade que para mim foi um verdadeiro tesouro em minha vida. Aconteceu ainda que me casei em 1986 com a irmã de Vivaldo da Cunha Borges, Eliana, que morava junto com Chico em Uberaba e fazia a diagramação de todos os seus livros. Passei então a ir mais frequentemente a Uberaba, hospedando-me com Chico, com quem pude desfrutar de longas conversas nas madrugadas. Nunca me esquecerei do amado amigo, com quem aprendi a amar Jesus e a raciocinar que a Doutrina Espírita sendo a Doutrina do Cristo Redivivo veio de Jesus para o coração do povo sofredor e aflito, sobrecarregado e sedento de novas luzes.

ALEX - Você também conheceu Martins Peralva? Como era este círculo de amizades que reunia em torno de você, do Chico...Como era a convivência de todos vocês?

Geraldinho, Vivaldo e Chico em 1988

GERALDINHO - Entre 1979 e 1981 fui estudar nos Estados Unidos da América do Norte e ao embarcar para lá ganhei de minha tia avó Nair Machado Paschoal o melhor presente de minha vida, a obra completa de Allan Kardec.

   Foi um período de quietude no campo junto às Montanhas Rochosas nos Estados do Arizona e de Washington, quando me entreguei de alma e coração às reflexões espíritas, guardando a certeza da veracidade de nossos princípios doutrinários. Naquela ocasião desenvolvi os primeiros sinais da psicografia e passei a receber pequenos comunicados de minha avó Carmen destinados aos familiares do Brasil. Minha mãe Gilda se preocupou e buscou auxílio através de sua prima Wanda de Figueiredo Noronha, amiga íntima de Chico Xavier. Indo a Uberaba e consultando o médium voltou com a indicação dele para que eu procurasse ouvir por telefone a opinião de Dona Neném Aluotto Berutto, então presidente da União Espírita Mineira. Assim fiz ouvindo dela a recomendação para suspender as psicografias e procurá-la assim que voltasse a Belo Horizonte.

   Voltei em fevereiro de 1981 e logo na primeira semana “reencontrei” duas almas irmãs que foram para mim verdadeiros pais espirituais, Dona Neném Aluotto Berutto e o Sr. José Martins Peralva Sobrinho, ou simplesmente Tia Neném e Seu Peralva, como os passei a tratar carinhosamente.

   As primeiras tarefas se desenvolveram em casa dela no Cenáculo Espírita Antônio de Pádua e logo fui convidado por eles a integrar a Cantina Espírita Francisco de Assis, mantida por eles na União Espírita Mineira, aos sábados pela manhã, para a assistência às mães carentes de socorro e amparo material e espiritual. Em breve tempo fui convidado a integrar as atividades da Mocidade Espírita “O Precursor” da União Espírita Mineira onde também “reencontrei” grandes amigos de outrora. Lá tivemos a alegria de participar das primeiras Feiras do Livro Espírita de Belo Horizonte e das primeiras COMEBH – Confraternização das Mocidades Espíritas de Belo Horizonte. Alguns desses amigos já retornaram à vida espiritual como Geraldo Augusto Maia, Telma Núbia Tavares e o maestro Toninho. Outros estão aí trabalhando e servindo em nome da Doutrina como Carlos Henrique Silva Malab e Jussara, Dr. Roberto Lúcio Vieira de Souza e Joana, Marinho Wenceslau Proença Silva, Mary, Wanderley Soares e Maria José, Marcelo Gardini de Almeida, o Professor Alberto do Esperanto, Décio de Araújo Filho, Paulinho Vicente, Alexandre de Senna Gouveia e Ana Maria, William Incalado Marques, Felipe Estabile Morais, Ivanir Severino da Silva e muitos mais.

   Da Mocidade Espírita O Precursor fui convidado por Dona Neném Aluotto a integrar a diretoria da União Espírita Mineira, a partir de 1983. Assumi o cargo de Diretor 2º secretário e minha função era justamente secundar os trabalhos do 1º secretário Martins Peralva, extraordinária personalidade, detentor de grandes conhecimentos doutrinários e renomado escritor espírita. Na diretoria da União Espírita Mineira, além de Dona Neném e de Martins Peralva, tive a grata alegria de conviver com Noraldino de Melo Castro, um dos signatários do Pacto Áureo, do movimento federativo, Pedro Valente da Cunha, Antônio Roberto Fontana, José Alves Neto, Marival Veloso de Matos e Mário Wenceslau Proença Silva. Quando Noraldino desencarnou, Peralva assumiu a vice-presidência e por minha vez passei a Diretor 1º Secretário, responsabilizando-me pelo registro em ata de todos os COFEMG’s ( Conselho Federativo Espírita do Estado de Minas Gerais) que reunia os 15 CRE’s Conselhos Regionais Espíritas espalhados por todo o Estado. Durante o exercício do encargo de direção tive a alegria de fundar o Departamento Editorial da União Espírita Mineira, com o lançamento do livro de autoria mediúnica de Chico Xavier cujo título é BASTÃO DE ARRIMO, que organizamos e lançamos em 1º de Dezembro de 1984, contendo as mensagens de William Machado de Figueiredo, desencarnado em 1941, em Pedro Leopoldo, para sua mãe, minha tia avó Adélia Machado de Figueiredo.

ALEX - Vocês assistiam filmes? Davam risadas? Como era a intimidade com o Chico?

Geraldinho e Chico em 1987
GERALDINHO - Quando convivi mais de perto na intimidade de sua casa de Uberaba, por várias ocasiões assistíamos juntos na casa de Vivaldo da Cunha Borges, meu cunhado que com Chico morava, as fitas em VHS de filmes que faziam a alegria de Chico como foi o caso de Ghost, Jornada nas Estrelas e muitos mais.

   Conversávamos longamente nas madrugadas sobre os temas mais interessantes, com ele sempre nos contando casos curiosos e impressionantes que ocorreram com ele ao longo de sua vida. Ele era de um bom humor extraordinário, sempre pronto a nos trazer notas de alegria e reconforto. Eu diria que Chico tinha os pés no chão, o coração junto de todos nós em atenções, cuidados e afetos puros, e os olhos fixados nas estrelas do firmamento! Acompanhávamos às vezes as suas tarefas do correio, quando o ajudávamos a subscritar caixinhas de mensagens endereçando-as aos seus amigos espalhados por todo o Brasil. Chico psicografava em casa usando um gravador com fitas de música clássica que nós, os amigos, lhe ofertávamos ou que ele mesmo mandava comprar. Apreciava muito os compositores clássicos românticos como Beethoven, Lizt, Chopin, Mendelsson, Brahms e também os mais recentes Sibelius, Mahler, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazaréh, e Heitor Villa Lobos, as músicas de canto popular e uma vez ele nos contou que a sua música preferida era o Hi Lily, Hi Lo de um compositor norte-americano. Chico também apreciava muito a música popular brasileira, com grande simpatia por Roberto Carlos.

   Quanto ao cinema meus tios avós costumavam relatar que Chico adorava ir ao cinema de Pedro Leopoldo acompanhado dos amigos e depois se reuniam todos em sua casa ou na casa de André Luiz seu irmão para os comentários. Era de se ver Chico pedindo a meu tio avó Walter Machado, que sempre teve dotes artísticos, para que ele desenhasse os artistas de Holywood, no que era atendido com prazer.

   Todas as pessoas que foram ligadas ao coração de Chico Xavier nas cidades de Pedro Leopoldo e Belo Horizonte atestam que com cada uma delas Chico partilhou o seu amor, a sua bondade natural, a sua alegria espontânea, a sua solidariedade incondicional. Todos são unânimes em afirmar isto, que o amor ao trabalho, a dedicação ao Evangelho de Jesus e à Doutrina Espírita foram suas características mais marcantes, e em especial a sua caridade aliada a uma disciplina impecável para com o serviço da consolação e da esperança. Chico Xavier espalhava alegria por onde passava, com seus casos e anedotas, a rir-se de si mesmo. Ao mesmo tempo era de se ver sua seriedade quando os nossos postulados espíritas cristãos estavam em jogo. Firmeza de caráter e coerência de sentimentos com a luz da razão esclarecida ! Para nós um verdadeiro Apóstolo do Cristo em tempos modernos.

ALEX - Quando ocorreu o desencarne de Chico, como você recebeu esta notícia?

Geraldinho e Chico em Uberaba
GERALDINHO - Eu estava em casa, depois de comemorar muito a vitória do Brasil na Copa do Mundo. Para mim a notícia foi um choque, embora guardasse no íntimo a certeza de que a vida continua e que ele, sem sombra de dúvida, estava finalmente recebendo o salário da paz que merecia como incansável servidor que ele sempre foi de Nosso Senhor Jesus Cristo aqui na Terra.

ALEX - Depois de seu desencarne você teve um reencontro lindo com ele não teve? Entre as noites de 16 e 17 de abril de 2003. O que ocorreu neste desdobramento?

GERALDINHO - Na madrugada entre os dias 16 e 17 de abril de 2003, estando já ausente do trabalho editorial por oito anos, tive singular desdobramento espiritual que me alterou sobremaneira o destino. Encontrei-me inicialmente com meu tio-avô Zeca Machado, meu guia espiritual por informação de Chico Xavier, que me convidou a me encontrar com o espirito liberto de Chico Xavier que estava nas cercanias da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte
MG. Nós dois para lá nos dirigimos para um comovente reencontro com Chico Xavier e Neném Aluotto, ambos já desencarnados. Na ocasião o convite ao trabalho do livro espírita foi novamente feito e, retornando ao corpo físico, guardei todos os detalhes do tríplice encontro, traçando, a partir daí, novos rumos para o porvir. Este fato foi ainda corroborado pela confirmação de dois outros médiuns, que no mesmo dia sonharam com situações semelhantes em torno da tarefa do livro. Ivanir Severino da Silva, médium e dirigente da Fraternidade Espírita Cristã Francisco de Assis (Fecfas), telefonou no dia seguinte relatando um sonho que tivera. Estava se encaminhando espiritualmente para rever Chico Xavier, quando, a meio caminho, deparou-se comigo rodeado de Dona Neném Aluotto e de minha avó Carmem Machado dos Santos. Nós três retornávamos de um encontro com Chico na Espiritualidade e trazíamos os braços cheios de livros. Perguntando a Dona Neném que livros seriam aqueles, ela respondeu a Ivanir que eram os livros que seriam publicados na Terra no futuro próximo, a pedido de Chico Xavier. Outra médium, Noêmia Barbosa da Silva, amiga íntima de nossa família e também de Chico Xavier, conhecida carinhosamente por Nona, também me telefonou no dia seguinte para me relatar seu próprio encontro com Chico Xavier na Espiritualidade. Numa casa ampla, de vastas janelas, Chico estava sentado à mesa revirando papéis de mensagens psicografadas por ele. Ao ver Nona chegar, convidou-a a sentar-se com ele, enquanto separava as mensagens e formava, com elas, vários pacotes. Nona perguntou-lhe o que estava fazendo e Chico respondeu-lhe: "Estou separando estas mensagens para que Geraldinho as receba e as transforme em livros na Terra!"

ALEX - E como foi aquele fato em que ele dizia "Você precisa conhecer Wanda Joviano"?

Cidália Xavier (irmã de Chico) e Wanda Amorin Joviano
GERALDINHO - Em outro desdobramento espiritual me encontrei novamente para conversar com Chico Xavier num banco de florida praça. Chico então me falou: "Você precisa conhecer Wanda Joviano!" Chico repetiu esse nome vagarosamente por três vezes. Eu acordei com aquela frase do Chico na cabeça. Durante três meses eu procurei por alguma Wanda Joviano em Belo Horizonte, Pedro Leopoldo e São Paulo, sem obter sucesso algum. Conversando com um amigo, Fernando Hermanny Peixoto Costa, este ocasionalmente me segredou que sua família tinha uma "guru" espiritual, uma pessoa muito ligada a Chico Xavier nos tempos de Pedro Leopoldo. Quando perguntei pelo seu nome veio a resposta inesperada: Wanda Joviano! O contato fraterno e amigo logo se estabeleceu entre nós ambos, em perfeita sintonia com a tarefa da divulgação espírita. Wanda Joviano, filha do casal Dr. Rômulo Joviano e Dona Maria Amorim Joviano, trabalhou ao lado do Chico por longos anos na Fazenda Modelo de Pedro Leopoldo. Lá, na residência da família Joviano, Chico Xavier psicografou vários de seus romances mediúnicos, além de participar semanalmente do Culto do Evangelho no Lar do Grupo Doméstico Arthur Joviano. Wanda mostrou-me então as centenas, senão milhares de mensagens ainda inéditas da psicografia de Francisco Cândido Xavier. Estavam lançadas as bases para consolidar o trabalho perene da Vinha de Luz Editora como uma editora dedicada à publicação das mensagens ainda inéditas da psicografia de Chico Xavier.

ALEX - Falando em Wanda Joviano, comente um pouco para nós sobre o livro dela e sobre a Vinha de Luz Editora.

GERALDINHO - Tive então contato com um vastíssimo material ainda inédito que Wanda Joviano, filha de Dr. Rômulo Joviano, guardou todo este tempo consigo, fruto das produções mediúnicas de Chico Xavier quando ele freqüentava o Culto do Evangelho no Lar da família Joviano, chamado Grupo Doméstico Arthur Joviano, na Fazenda Modelo onde Chico trabalhara. São preciosas mensagens de autoria espiritual de Neio Lúcio (Arthur Joviano, pai de Dr. Rômulo em última vida ), de Emmanuel, de Casimiro Cunha e muitos outros espíritos comunicantes, que desde o ano de 2006 o Vinha de Luz tem tido a alegria de publicar nos livros SEMENTEIRA DE LUZ; DEUS CONOSCO; MILITARES NO ALÉM; PÉROLAS DE SABEDORIA; ILUMINURAS; SEMENTEIRA DE PAZ e COLHEITA DO BEM.

   Este período da psicografia de Pedro Leopoldo sem dúvida nenhuma foi o mais fecundo. É simplesmente incrível a gente hoje verificar a exuberância da obra recebida por Chico Xavier naqueles primeiros anos de mediunidade, afinal aos olhos do mundo tratava-se apenas de um rapaz simplório e humilde, trabalhador e aparentemente inculto, a assombrar o Brasil com a força de seu caráter e a mais pura e lídima sintonia com o plano da Vida Mais Alta !

   Nos primeiros tempos de mediunidade Chico conheceu o Sr. Fausto Joviano, no Centro Espírita Luiz Gonzaga, que impressionado com a mediunidade autêntica do rapazola e condoído de sua situação econômica precária, resolveu levá-lo à presença de seu irmão Dr. Rômulo Joviano, então diretor da Fazenda Modelo do Ministério da Agricultura em Pedro Leopoldo. A afinidade natural se estabeleceu entre os dois espíritos que certamente se reencontravam para o desempenho de sagrados deveres para com a vida comunitária e a espiritualidade maior.

   Chico foi então admitido como colaborador da Fazenda Modelo e depois dos serviços que terminavam às 17 horas, foi convidado a participar duas vezes por semana das reuniões particulares que se realizavam na residência da família Joviano. Assim a partir de 1934 até o ano de 1952, quando a família Joviano se mudou para o Rio de Janeiro, Chico Xavier psicografava duas vezes por semana nas reuniões do Culto do Evangelho no Lar do Grupo Doméstico Arthur Joviano, às terças e quartas feiras. Naquelas inolvidáveis reuniões os espíritos de Arthur Joviano ( depois revelado como o mesmo Neio Lúcio de 50 Anos Depois e também Jaques Duchesne Davemport de Renúncia ) e Emmanuel, além de outros espíritos, passaram a coordenar informações preciosas sobre o trabalho psicográfico de lançamento de livros dos autores espirituais que escreviam através de Chico Xavier. Hoje temos a alegria de ter essas mensagens esclarecedoras publicadas através dos livros da Vinha de Luz Editora.

   Além dessas reuniões, nos outros dias disponíveis Chico, após o serviço profissional, ao qual se dedicava com profundo desvelo e disciplina, também passou a receber pela psicografia os romances de Emmanuel, os primeiros livros de André Luiz e também os de Humberto de Campos.

   Para tanto Dr. Rômulo reservara uma sala no primeiro andar da Fazenda Modelo ( não era propriamente um porão) onde Chico pudesse se desincumbir da tarefa sem ser importunado por ninguém. Este clima de proteção e cuidado em torno da mediunidade de Chico Xavier foi essencial para que o nobre medianeiro ficasse em absoluta tranqüilidade espiritual e em paz de espírito, longe do burburinho da cidade e do assédio dos que o procuravam, e pudesse assim nos brindar com livros como o PAULO E ESTÊVÃO; o 50 ANOS DEPOIS; o RENÚNCIA; a série NOSSO LAR até 1952; e outros mais.

  Tudo isto Wanda Joviano acompanhou desde menina até que adulta passou a trabalhar também como funcionário do Ministério da Agricultura, tendo prestado concurso junto com Chico Xavier, sendo os dois efetivados à mesma época. Trabalharam lado a lado na Fazenda Modelo de Pedro Leopoldo por largos anos até que em 1952, seu pai, Dr. Rômulo Joviano, foi promovido à cidade do Rio de Janeiro e a família dele teve que se mudar de Pedro Leopoldo. Mas mantiveram sempre a ligação e a amizade com o querido Chico.

ALEX - E seus livros? Comente um pouco sobre eles para nós.

Geraldinho autografando um de seus livros

GERALDINHO - Conheci pessoalmente Chico Xavier em Outubro de 1981 e desde que nos tornamos amigos, em Uberaba, passei a me interessar pelas mensagens ainda inéditas de sua abençoada psicografia. Sendo integrante de uma numerosa família, os Machado de Pedro Leopoldo, que por largos anos conviveram com Chico dele recebendo incontáveis mensagens mediúnicas de familiares desencarnados e dos benfeitores espirituais, a princípio me dediquei a reunir este acervo, dando-lhe a necessária e útil divulgação.

   Assim surgiu o primeiro livro em 1º de Dezembro de 1984 pela União Espírita Mineira, reunindo as 33 mensagens de meu primo William Machado de Figueiredo, que desencarnou em Pedro Leopoldo em 1941, dirigidas ao conforto de sua mãe, minha tia avó Adélia Machado de Figueiredo. Este livro BASTÃO DE ARRIMO contará agora no centenário de Chico Xavier com nova edição brevemente. Depois foi a vez das inumeráveis mensagens de Dr. Bezerra de Menezes dirigidas a vários de meus familiares em comunicados pessoais. Tive ocasião de reuni-las todas tirando delas o aspecto particular e transformando-as no livro APELOS CRISTÃOS, de 1984, também editado pela União Espírita Mineira que o relançou estes dias. A terceira produção foi a compilação das mensagens de Margarida Soares, minha tia bisavó, desencarnada em 1915 em Sabará, e que se comunicava frequentemente por Chico Xavier. Utilizando a mesma técnica aplicada com as mensagens de Dr. Bezerra, reuni aquelas de Tia Margarida em livro denominado ACEITAÇÃO E VIDA, também editado pela UEM e reeditado agora em 2010. Daí Chico Xavier nos encaminhou 3 livros de trovas inéditas que publicamos nos anos seguintes. São eles o ROSEIRAL DE LUZ; o PÉTALAS DA PRIMAVERA e o FULGOR NO ENTARDECER. A partir daí nos lançamos a uma cruzada de buscas de mensagens inéditas que Chico Xavier havia recebido em Belo Horizonte, cidade a que ele vinha com muita freqüência até 1959 quando se mudou para Uberaba. Me espantava verificar o fato de que os amigos dele de BH nunca haviam se dignado a publicar coisa alguma de suas memoráveis produções mediúnicas na capital dos mineiros. Então acabamos por reunir um vasto material biográfico e inúmeras mensagens ainda inéditas de sua lavra mediúnica para formatar o livro CHICO XAVIER, MANDATO DE AMOR , lançado pela UEM em 1992. Em 1993 Chico nos encaminhou o livro de bolso de Emmanuel, chamado MIGALHA para sua devida publicação.

   Quanto aos livros de minha própria psicografia temos o primeiro que foi lançado em 2 de Abril de 2004 de espíritos diversos que se chama RÉSTIA DE LUZ e em 31 de Julho de 2005 de autoria do espírito de Theophorus tivemos a ocasião de publicar o romance histórico do Cristianismo Primitivo cujo título é IGNÁCIO DE ANTIOQUIA, ambos publicados pelo Vinha de Luz – Serviço Editorial.

   Na sequência continuamos na tarefa editorial, organizando e publicando os seguintes livros :

   Em 2 de Abril de 2006 por ocasião da inauguração da Casa de Chico Xavier o lançamento de SEMENTEIRA DE LUZ pelo espírito de Neio Lúcio. Em 2007 foi a vez de DEUS CONOSCO pelo espírito de Emmanuel. Em 2008 por ocasião do I Encontro Nacional dos Amigos de Chico Xavier e sua Obra realizado em Abril na cidade de Uberaba, MG, lançamos o MILITARES NO ALÉM por espíritos diversos.

   No ano de 2009, no II Encontro dos Amigos de Chico Xavier e sua obra em Pedro Leopoldo, MG, foi a vez de mais dois livros, PÉROLAS DE SABEDORIA de espíritos diversos e ILUMINURAS pelo espírito de Emmanuel. Ano passado no centenário de Chico Xavier em 2010 publicamos duas novas obras de autoria espiritual de Neio Lúcio, no dia 4 de Abril foi lançado o SEMENTEIRA DE PAZ e no dia 19 de Novembro foi a vez do COLHEITA DO BEM. Também em Abril foi lançado o maravilhoso CHICO XAVIER – O PRIMEIRO LIVRO de espíritos diversos e que Chico Xavier confeccionou, ele mesmo, manualmente a partir de 1928, portanto muito antes do surgimento do Parnaso.Também de outros autores editamos os seguintes livros : CÉLIA LUCIUS, SANTA MARINA de autoria de Clóvis Tavares e Flávio Mussa Tavares de Campos, RJ; a biografia infantil de Chico Xavier chamada CHIQUITO da autora portuguesa Julieta Marques; em 8 de Julho de 2010 o livro O VOO DA GARÇA uma biografia de Chico Xavier escrita por Jhon Harley; o livro ERA UMA VEZ PARA SEMPRE do médium Carlos Malab; o livro IRMÃO JOSÉ, IRMÃO EM CRISTO do médium Ivanir Severino da Silva; e mais recentemente o belo EVANGELHO PURO, PURO EVANGELHO de Martins Peralva, lançado postumamente no dia 22 de Dezembro de 2009.

   Mais recentemente publiquei uma biografia fotográfica de Chico Xavier que organizamos em parceria com o memorialista Geraldo Leão, chamada PEDRO LEOPOLDO VISTA POR CHICO XAVIER - 1910 - 1959, e o Audiolivro em parceria com o ator paulistano Fernando Peron, contendo mensagens de Chico Xavier, cujo título é VIAJANTES. Estes dois últimos foram lançados no último dia 10 de Setembro de 2011 por ocasião do IV Encontro Nacional dos Amigos de Chico Xavier e sua Obra em Belo Horizonte.

   Tive ainda a satisfação de colaborar também ativamente na edição dos seguintes livros em parceria com outras editoras : MENSAGENS DE INÊS DE CASTRO de Chico Xavier pelo espírito de Inês de Castro, editado por Caio Ramacciotti no GEEM – Grupo Espírita Emmanuel de São Bernardo do Campo; A VOLTA DE ALLAN KARDEC e também ASPECTO RELIGIOSO DO ESPIRITISMO, ambos de autoria de Weimar Muniz de Oliveira editados pela Federação Espírita do Estado de Goiás – FEEGO.

Capa do Livro
ALEX - "Não vai ser em 2012", Geraldinho, o li no mesmo instante que o comprei, como surgiu esta idéia entre você e Marlene Nobre de publicar este tesouro que depois de tanto tempo foi aberto?

GERALDINHO - Neste livro sou o co-autor, porque na realidade a autoria é da Dra. Marlene Nobre. A minha parte diz respeito à entrevista que dei à Folha Espírita em que revelo o teor da conversa que mantive com Chico Xavier numa noite de 1986, na qual o amado amigo me revelou detalhes sobre as decisões do Cristo e de sua falange angelical a respeito do futuro da humanidade terrestre. Desde há muito tempo conversávamos com Marlene Nobre e outros amigos sobre o que Chico havia me revelado até que no final do ano de seu centenário em 2010 chegamos à conclusão de que a hora para revelar ao público o seu conteúdo havia chegado. Tanto Marlene Nobre quanto eu mesmo sentimos a urgência em nos desincumbir deste compromisso de consciência. Assim nossa estimada Marlene passou a publicar vários artigos na Folha Espírita neste ano de 2011 incluindo no mês de Maio a entrevista que lhe dei. Logo após consolidou-se na Folha Espírita estas informações transformadas então no livro NÃO SERÁ 2012 e no DVD correspondente que gravamos para a TV Aberta de São Paulo.

ALEX - Como tem sido pra você, particularmente, a repercussão desta obra?

GERALDINHO - Muito positiva em 99% dos casos. A grande maioria das pessoas parece que compreende a profundidade dos temas tratados e reconhece a atualidade das advertências implícitas nas revelações de Chico Xavier. Na verdade é um grande chamado pessoal e coletivo à nossa própria responsabilidade de viver estes tempos de transição.

ALEX - E vem mais por aí? Mais mensagens guardadas? Páginas inéditas? O que podemos aguardar em termo de publicações?

GERALDINHO - Sim, estamos trabalhando para melhor servir à história da Doutrina Espírita no Brasil, em particular em torno da mediunidade e da vida de Chico Xavier.

ALEX - Sobre a Casa de Chico Xavier em Pedro Leopoldo, como começaram as visitações após o seu desencarne e como funciona ela hoje, tão bem administrada por vossa pessoa?

Casa do Chico em Pedro Leopoldo - MG
GERALDINHO - Logo após a desencarnação de Chico Xavier fomos procurados em Belo Horizonte por sua sobrinha Maria Lúcia Ferreira Gonçalves, filha de Dona Luiza Xavier, irmã querida de Chico Xavier, que como herdeira dos bens de Chico Xavier desejava alienar a casa que lhe pertenceu em Pedro Leopoldo. Ela me disse ter certeza de que Chico ficaria feliz se a casa ficasse aos nossos cuidados, e assim efetivamente acabei por adquiri-la em 2004 comprometendo-me a preservá-la para a posteridade. Depois de algum tempo de reformas, quando contamos com a ajuda gratuita da arquiteta Mary Machado de Faria e sua equipe, pudemos reinaugurar a casa que Chico Xavier construiu em 1946, para onde se mudou em 1948 e onde viveu até 1959, mantendo-a ainda em sua posse até a sua desencarnação em 2002. Desde o dia de sua reinauguração em 2 de Abril de 2006 ela funciona na cidade natal do médium querido como um Centro de Referência à sua vida e obra. No decorrer dos últimos 7 anos mais de 100.000 visitantes já passaram por ela e assinaram o livro de presenças, provenientes de todas as partes do país e do mundo. Isto sem contar aqueles que naturalmente se esquecem de registrar sua presença.

   Lá temos uma suíte fotográfica do médium, objetos de seu uso pessoal, o quarto de dormir e o banheirinho que era utilizado por ele totalmente preservados, uma exposição dos 464 livros já publicados de sua psicografia, além de mais 210 livros biográficos ou que se referem à sua vida e obra, uma sessão com alguns primeiros exemplares de primeiras edições, cartas manuscritas, mensagens, cartões, CD’s, DVD’s, revistas, títulos de cidadania honorária, e inúmeras traduções de suas obras para o Italiano, o Espanhol, o Inglês, o Francês, o Alemão, o Esperanto, o Sueco, o Russo, o Grego e o Japonês.

   Na Casa de Chico Xavier realizamos todos os domingos às 18 horas o Culto do Evangelho no Lar com o estudo de suas obras, e presentemente estamos estudando OS MENSAGEIROSde André Luiz. Também quinzenalmente às terças-feiras lá se reúne o Grupo Fraterno Veneranda que congrega companheiros de todos os centros espíritas de Pedro Leopoldo em demanda às regiões mais distantes e carentes do centro da cidade para o serviço de assistência fraterna e a distribuição de alimentos, roupas, brinquedos e artigos de primeira necessidade.

   A Casa de Chico Xavier está aberta à visitação pública de terça-feira aos domingos, de 9:00 às 12:00 horas e de 15:00 às 19:00 horas e a entrada é gratuita.

ALEX - Conte um pouco para nós sobre o que é o Encontro Nacional de Amigos de Chico Xavier e como foi o mais recente, ocorrido neste final de semana, nos dias 10 e 11 de setembro?

Baccelli, Eurípedes (filho de Chico) e Geraldo no Encontro

GERALDINHO - A iniciativa de realizarmos um encontro anual dos amigos de Chico Xavier e sua obra surgiu em 2007 num Confraternar na cidade de Uberaba. Na ocasião alguns de nós, como Carlos e Márcia Baccelli, Eurípedes Reis, Sônia Benaventana, Sônia Barsante, César Carneiro e eu próprio, sentíamos um grande vazio no movimento espírita pela falta que Chico estava nos fazendo, a falta que a presença física dele estava nos fazendo. Pensamos então nesta idéia de congregar os amigos dele, espalhados por todo o Brasil, no objetivo de reanimar a todos e instituir um projeto de difusão permanente de sua vida e obra, tendo a urgente necessidade de considerá-la como obra básica da Doutrina dos Espíritos. A partir de 2008 então nos reunimos pela primeira vez em Uberaba, seguindo-se Pedro Leopoldo em 2009 e novamente Uberaba no ano de seu centenário de nascimento em 2010.

   O IV Encontro Nacional dos Amigos de Chico Xavier e sua Obra foi realizado nos dias 10 e 11 de setembro em Belo Horizonte e Pedro Leopoldo. O evento, que acontece pelo quarto ano consecutivo, reuniu cerca de 1.650 pessoas no Salão Topázio do Minascentro e teve como tema central a obra de Emmanuel, o benfeitor espiritual que orientou o trabalho psicográfico de Chico Xavier a partir de 1931.

   As atividades programadas para os dois dias contemplaram diversas atrações, sendo elas: a) musicais — apresentação da soprano Melina Peixoto e do pianista Mauro Chantal, da dupla de violão e canto Juliano e Ertúzio Calazans, do Coral Vida e Luz (de Goiânia) e dos cantores Sérgio e Marlene Santos de Uberaba, MG; b) palestras — Juselma Coelho, da Sociedade Espírita Maria Nunes de Belo Horizonte, presidente do Conselho Espírita da capital mineira; Richard Simonetti, escritor e articulista do Centro Espírita Amor e Caridade de Bauru, SP; Geraldo Lemos Neto, idealizador da Casa de Chico Xavier de Pedro Leopoldo e fundador da Vinha de Luz Editora; Eurípedes Humberto Higino dos Reis, do Grupo Espírita da Prece de Chico Xavier de Uberaba, filho adotivo do médium; Oceano Vieira de Melo, cineasta da Versátil Vídeo Spirite, de São Paulo; Sérgio Villar, apresentador da TV A Caminho da Luz, de Itapira, SP; Roberto Lúcio Vieira de Souza, vice-presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil e diretor clínico do Hospital Espírita André Luiz, de Belo Horizonte; Wagner de Assis, cineasta carioca, diretor e produtor do filme Nosso Lar; Carlos Antônio Baccelli, escritor, biógrafo e parceiro mediúnico de Chico Xavier, de Uberaba, MG; c) homenagens a Cidália Xavier de Carvalho, irmã de Chico Xavier, residente em Pedro Leopoldo; Wanda Amorim Joviano, colega de trabalho de Chico Xavier na Fazenda Modelo do Ministério da Agricultura, em Pedro Leopoldo; Noêmia Barbosa da Silva, amiga inseparável do médium, da capital mineira; Maria Philomena Aluotto Berutto e José Martins Peralva Sobrinho, in memoriam, amigos e ex-diretores da União Espírita Mineira por 33 anos, até 1995; d) lançamentos — pela Vinha de Luz Editora, foram lançados o "Viajantes - A Espiritualidade iluminando sua mente e seu coração através de Chico Xavier”, audiolivro contendo 20 mensagens de espíritos diversos, organizadas e interpretadas pelo ator e dublador paulistano Fernando Perón; o livro "Pedro Leopoldo vista por Chico Xavier (1910-1959) 49 anos da presença do maior médium de todos os tempos", obra organizada pelo memorialista pedroleopoldense Geraldo Leão e por Geraldo Lemos Neto, da Casa de Chico Xavier; pela editora Intervidas, o livro dos bastidores do filme "As mães de Chico Xavier", organizado pelo jornalista Saulo Gomes; e pela Versátil Vídeo Spirite o DVD "As cartas psicografadas por Chico Xavier", apresentado pelo documentarista e cineasta Oceano Vieira de Melo.

   Todos os participantes ganharam dois livros da psicografia de Chico Xavier, sendo o primeiro “Bastão de arrimo”, pelo espírito de William Machado de Figueiredo e organizado por Geraldo Lemos Neto em 1984, e uma obra de bolso intitulada "Antologia da juventude", de espíritos diversos, ofertada pela editora GEEM – Grupo Espírita Emmanuel, de São Bernardo do Campo, SP.

   Os presentes ao IV Encontro tiveram a oportunidade de conhecer mais sobre a vida e a obra de Chico Xavier e compartilhar experiências vividas com o maior representante do Espiritismo no Brasil e no mundo, cuja existência foi marcada pela exemplificação constante do amor, da abnegação, da renúncia, da fraternidade e humildade na relação com o próximo, e uma obra literária que conta hoje com 464 títulos já publicados, conforme relação entregue a cada um dos inscritos.

   Casos, curiosidades e vivências individuais foram contados num clima de grande emoção para uma plateia formada por espíritas de diversas regiões brasileiras, e vindos de outros países, como Portugal, Inglaterra, Espanha, Estados Unidos e Angola.

   A Vinha de Luz Editora disponibilizou no local uma livraria com as obras da lavra de Chico Xavier e os lançamentos realizados durante o Encontro, onde expôs, inclusive, diversas obras da artista plástica Amarilis Chaves, retratando personalidades expressivas para o movimento espírita, dentre elas Arthur Joviano (Neio Lúcio), o casal Rômulo e Maria Joviano, Emmanuel, Dr. Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo, André Luiz, Meimei, além de situações vividas pelo médium Chico Xavier durante o período em que viveu em Pedro Leopoldo.

   Promovido pela Casa de Chico Xavier de Pedro Leopoldo, com o apoio da Aliança Municipal Espírita de Pedro Leopoldo e de Uberaba, o IV Encontro Nacional dos Amigos de Chico Xavier e sua Obra contou com o patrocínio da Vinha de Luz Editora da Casa de Chico Xavier e da Fundação Cultural Chico Xavier, de Pedro Leopoldo, e do Grupo Espírita da Prece de Chico Xavier, Casa de Memória e Lembranças de Chico Xavier e do Lar Espírita Editora Pedro e Paulo, de Uberaba, além do apoio de diversas instituições espíritas brasileiras. Em 2012, a quinta edição do evento será realizada em Votuporanga, interior do Estado de São Paulo.

ALEX - Como foi fazer as caminhadas de Belo Horizonte á Pedro Leopoldo no sábado pela manhã e depois no domingo para o encerramento?

GERALDINHO - No sábado pela manhã, os amigos de Chico Xavier puderam visitar os locais que integram o "Caminhos de Luz de Chico Xavier", roteiro obrigatório para quem visita a cidade natal do médium. Instituído pela Fundação Cultural Chico Xavier em 2006, o roteiro inclui a casa em que Chico Xavier residiu até 1959, quando se mudou para Uberaba, hoje transformada em centro de referência da vida e da obra do médium mineiro, e que tem em seu acervo documentos, fotografias e objetos pessoais de Chico Xavier, além das 464 obras psicografadas por ele ao longo dos seus 75 anos de trabalho mediúnico; a Praça Chico Xavier, inaugurada em 1980; a Fazenda Modelo, local em que Chico Xavier trabalhou por mais de 30 anos, exercendo a função de escriturário; o Açude do Capão, local em que viu seu benfeitor espiritual - Emmanuel - pela primeira vez, em 1931; o Centro Espírita Luiz Gonzaga, fundado pelo médium em 1927, com sede atual inaugurada em 2 de abril de 1950; o Centro Espírita Meimei, fundado por Chico em 1952; a Escola Estadual São José, que o menino Chico Xavier frequentou de 1919 a 1923; a Mostra Unimed Arquivo Geraldo Leão, exposição permanente em torno do médium mineiro. No domingo, as atividades foram encerradas com a apresentação da dupla uberabense Sérgio e Marlene Santos e do Coral Vida e Luz de Goiânia na Praça Chico Xavier, seguida da prece na Casa de Chico Xavier, durante o culto do Evangelho que ali se realiza aos domingos, às 18 horas.

Geraldinho, Baccelli e Saulo Gomes
ALEX - Falando em "amigos de Chico Xavier", sei que você tem assim como eu, um carinho todo especial pelo nosso amigo Saulo Gomes, o "repórter de Chico Xavier". O que você teria a falar sobre esta alma tão amigável que sem perceber foi umas das pessoas mais importantes para a divulgação espirita. E por que não dizer o mais importante divulgador de Francisco Cândido Xavier.

GERALDINHO - Saulo Gomes também esteve conosco no IV Encontro, ocasião em que lançou o livro AS MÃES DE CHICO XAVIER dando o seu testemunho pessoal a respeito de sua convivência jornalística com a mediunidade de Chico Xavier a partir de finais da década de 60. Sem dúvida alguma é um valoroso companheiro da divulgação espírita cristã, e especialmente inesquecível a sua importante contribuição no Programa Pinga-Fogo da antiga TV Tupi que mostrou ao Brasil a face da Doutrina Espírita personificada na seriedade e na simplicidade de Chico Xavier.

Geraldinho e Alex no C.E.Uberabense (I Forum Mediunidade)
ALEX - Para finalizar a nossa entrevista que não quero encerrar (risos), irei realizar contigo um Pinga-Fogo, muito mais simples que o da Tv Tupi (risos).

- Belo Horizonte - A bela cidade dos horizontes ilimitados no coração dos mineiros.

- Pedro Leopoldo - O Berço de bençãos espirituais inimagináveis.

- Cidália Xavier - A familiaridade amorosa de uma irmã querida.

- Chico Xavier- A candura do apóstolo do Cristo que apagou-se para servir.

- Allan Kardec - A inteligência iluminada de amor ao Evangelho Redivivo.

- Jesus - Nosso Divino Amigo, personificação sublime da Sabedoria dos Céus e do Amor Misericoridioso.

- Deus - O Divino Pensamento e o Amor Divino que se reflete no campo de todas as criaturas.

ALEX - Muito obrigado Geraldinho, pelo carinho, atenção e disponibilidade, mesmo tão ocupado, você nos cedeu este tempo para esta conversa tão iluminada, onde nos fez relembrar nosso Chico. Que todos os Benfeitores Espirituais, não somente aqueles que passaram por sua vida neste encarnação, mas como aqueles que te auxiliam nestas missões, possam continuar a lhe dar forças, coragem e fé.

GERALDINHO - Sou eu quem agradece meu caro amigo. Jesus nos guarde e guie hoje e sempre!

Acessem www.vinhadeluz.com.br e saibam um pouco mais sobre o trabalho de Geraldinho.

Abaixo o video da palestra proferida por Geraldinho no I Forum da Mediunidade em Uberaba.